Filme “Incêndios”
Incêndios é um filme canadense de 2010 dirigido por Denis Villeneuve (o mesmo diretor do famoso “A chegada”).
Com poucos diálogos e muito mais apelo visual, Incêndios é, unanimemente, um filme pesado, denso. Ele narra a história de dois irmãos gêmeos que acabaram de perder a mãe e precisam lidar com estranhos pedidos em seu testamento, pedido este que os levará até a Palestina, numa jornada em busca do passado da mãe e de uma verdade que se revelará quase impossível (“1+1=1?”)
Uma mãe que morre e que pede para ser enterrada sem caixão, nua e de costas, sem lápide, e que diz que somente após a realização de um grande pedido seu é que os filhos poderão colocar sua lápide no túmulo é, no mínimo, um roteiro que prenuncia que a história será densa e profunda.
Logo no início, na cena em que raspam o cabelo do menino-criança – ao som de Radiohead – vemos no olhar dele a morte da infância em meio a um cenário de barbárie e guerra no Oriente Médio.
Nesse filme, todos são queimados de alguma forma, seja no corpo, na memória ou na história. Marcados e com feridas dolorosas como em carne viva. Os olhos dos personagens carregam essa mensagem, e repare como a câmera insiste em destacá-los: olhares que dizem mais do que qualquer diálogo poderia dar conta. Raiva, ódio, tristeza, revolta, luto e silêncios que revelam a falência da linguagem no contexto de trauma, violência e guerra.
O que pode acontecer com um sujeito quando, no lugar da infância, há espaço somente para violência e sobrevivência? Como se faz para existir quanto tudo ao redor queima, machuca e nunca cicatriza? Reparem também como o elemento fogo e água aparecem nas cenas…
É impossível não perceber o quanto Incêndios ecoa para nossa realidade no Brasil, onde uma espécie de guerra civil silenciosa se desenrola nas periferias e condena crianças a traumas muitas vezes inenarráveis e que podem produzir tragédias na humanidade de um sujeito como a que vemos neste filme.
Há sujeitos que, para não se deixarem apagar, para não serem invisíveis a sociedade, escolhem se fazer existir no ódio e na violência, mesmo que isso custe a própria humanidade.
A obra canadense nos deixa com afirmações duras e muitas perguntas sem respostas:
- A barbárie não é um desvio, ela é, em parte, um produto do ambiente social e político. A chamada “guerra santa” no filme apenas escancara algo universal: quando se desumaniza o outro, pode-se matar sem culpa.
- Até onde você iria em nome da verdade? E porque ir tão fundo em nossas raízes? O filme não responde de forma confortável. Pelo contrário, ele parece sugerir que a verdade, quando finalmente encontrada, pode ser tragédia.. Ainda assim, há algo de inevitavelmente humano. Como se não saber fosse, no fim das contas, ainda mais insuportável. Seria a tragédia um saber ou um não saber? 1+1 pode ser = 1?
Referências:
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-179349/
Ciclo de cinema e psicanálise https://www.youtube.com/watch?v=n4wJyzCDyEc&t=478s
Patrícia Andrade
Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real