O Drama
O Drama (The Drama, EUA, 2026) é um filme do diretor norueguês Kristoffer Borgli – o mesmo que fez o filme “Doente de Mim Mesma”, também já analisado aqui no nosso blog!
O longa narra a história de um casal Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) que se encontra no ápice da paixão até que, uma semana antes do casamento, num jantar com amigos, Charlie descobre um segredo sobre Emma que o joga em pensamentos bastante ansiosos e paranóicos a respeito de quem é a mulher que ele escolheu para casar. A partir dessa cena há um corte no filme, que até então parecia apenas uma comédia romântica sobre um casal apaixonado e começa o verdadeiro “drama”. Chamo de “corte” porque, a partir da descoberta, nada na vida do casal é como antes. Tudo é dividido entre um antes e um depois da descoberta.
Mas o que O Drama faz é abrir questões que vão além do “quem é esse outro com quem me relaciono?”. O filme, além de evocar uma temática importante na sociedade atual, a saber, a da violência e dos grupos extremistas que buscam reconhecimento com práticas malignas e nocivas, também joga luz sobre como construímos moralmente julgamentos sobre uma pessoa e o que isso diz sobre nós. Podemos dizer até que o filme aprofunda a questão e toca em lugares bastante familiares à psicanálise, uma vez que desloca o julgamento moral para uma investigação dos fragmentos da história de Emma. Também traz à tona a pergunta: o que resta quando a imagem – sempre idealizada – que tínhamos de alguém se quebra? Como Charlie vai lidar ao longo do filme com esse acontecimento é o que o filme desenrola. O que acontecerá com o casal? Uma separação, rompimento abrupto, continuidade turbulenta, pacífica?
Em afinidade com a psicanálise, O Drama se recusa a reduzir os personagens em lógicas binárias onde um personagem é totalmente bom e inocente e o outro, totalmente mal. Ninguém está completamente certo ou completamente errado. Há uma verdade em cada posição, embora nenhuma delas seja suficiente para dar conta da complexidade do assunto levantado por Emma (Zendaya)
[ALERTA DE SPOILER]
Na cena do jantar, todos os personagens participam de um jogo onde confessam “qual foi a pior coisa que já fizeram na vida”. Rachel (Alana Haim) confessa que consiste em ter trancado e abandonado um amigo de infância com dificuldades cognitivas dentro de um armário em um trailer abandonado, Charlie (Robert Pattinson) confessa que no ensino médio fez bullying com um colega que precisou se mudar de cidade com a família para fugir das agressões e Mike (Mamoudou Athie) confessa que usou uma ex-namorada como escudo humano (abaixando-se ou se esquivando) para se proteger durante um ataque de cachorro. Emma (Zendaya) confessa que na adolescência planejou e quase cometeu um massacre com armas de fogo em sua escola.
A personagem Rachel não dá nem uma chance para a escuta de Emma e a ataca com mil pedras na mão, moral e pessoalmente. Todos ficam muito chocados com a confissão de Emma, que tenta se explicar e justificar o que seria injustificável. Ela conta que, na época adolescente, estava com depressão e sofria bullying na escola, não tinha amigos e sua vida era um pesadelo. Ela conta, inclusive, que se desviou desse caminho e passou a lutar contra a legalidade do porte de armas no seu país após tomar consciência do que de fato quase realizou.
Embora ela não tenha realizado o massacre, é tratada por Rachel como se tivesse o cometido. Os outros personagens na mesa de jantar não só cogitaram, mas cometeram erros cruéis, mas somente Emma é vista como uma psicopata.
É mais confortável acreditar que existem pessoas monstruosas, que são verdadeiros monstros, do que admitir para si que cada um de nós, individual e coletivamente, têm uma possível parte no monstro que nasceu no Outro.
O filme é bom porque nos convoca ao debate. Se lembrarmos que vivemos em uma sociedade que muito julga, pune e encarcera pessoas com a mesma facilidade em que comete negligências, ausências e atrocidades políticas, o filme provoca ainda mais. Dar escuta ao outro que pensou ou cometeu uma atrocidade é necessariamente justificar e absolver? Chamá-lo de monstro e segregá-lo é suficiente? O monstro é totalmente monstro sempre ou ele pode ser um monstro criado por uma sociedade doente e que precisa trabalhar muito a si mesma
Em uma época em que frequentemente confundimos explicação com absolvição, O Drama nos lembra que investigar as causas de um ato não significa retirar sua responsabilidade.
É mais confortável acreditar que monstros simplesmente existem por si só do que admitir que eles podem ser produzidos por relações cotidianas de humilhação, exclusão e indiferença das quais, muitas vezes, nós mesmos (pessoas comuns) reproduzimos sem pensar.
Há ainda outra pergunta que atravessa discretamente a narrativa: aquilo que salvou uma pessoa necessariamente salvará outra? O que funcionou para um, funciona para o outro?
Existisse uma única forma correta de lidar com o sofrimento. A psicanálise, ao contrário, insiste que cada sujeito inventa uma solução singular para sua dor. Não existem fórmulas capazes de servir igualmente para todos.
O Drama é um filme sobre nossa necessidade de transformar pessoas em personagens simples: vítimas, culpados ou inocentes. Ao desfazer essas categorias, a obra aponta para um problema maior da vida em sociedade: nossa dificuldade de sustentar a complexidade do outro e o horror que pode vir junto. Mas o que realmente faz
Em vez de perguntar apenas “o que fazer com alguém que pensou em cometer uma atrocidade?”, o filme nos obriga a perguntar: o que podemos fazer, como sociedade, para que cada vez menos pessoas precisem buscar espaços violentos de pertencimento e imaginar a violência como única saída para seu sofrimento?
O final do filme é aberto à imaginação e interpretação do espectador. Conhecer alguém não parece ser tão simplório quanto nossa mente gosta de acreditar quando dizemos: prazer em conhecê-lo.
Patrícia Andrade
Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real