Hamnet: A vida antes de Hamlet e o luto de cada um

Hamnet: A vida antes de Hamlet e o luto de cada um

Hamnet: A vida antes de Hamlet (2026) é um filme da diretora Chloé Zhao que conquistou o Oscar de melhor filme este ano. A obra é inspirada no romance histórico de Maggie O’Farrell, que recria, a partir de elementos da biografia de Shakespeare, a relação entre o dramaturgo e seu filho falecido precocemente Hamnet, historicamente apontado por estudiosos do autor como uma das principais inspirações para a criação de Hamlet, considerada mundialmente sua obra-prima. 

O filme está mais interessado em retratar a fragilidade de Shakespeare, sua vida pessoal, do que em idealizar e glorificar ainda mais sua imagem de gênio e seu mito. Ele é retratado de maneira humana: como alguém fragilizado, humilhado, silencioso e vulnerável a desorganização do luto. Um homem que, tal como qualquer um de nós, não tem poderes mágicos e se vê atravessado por uma experiência trágica em sua vida.

Sua mulher, Agnes, também vive essa experiência devastadora e, diante da indignação e da falta de sentido que é para uma mãe a perda de seu filho, ela tenta, num primeiro momento, lidar com o luto culpando Shakespeare por suas falhas e ausências enquanto pai.

É normal que durante o luto tenhamos reações como essa, afinal, o luto reflete sempre a dificuldade que todos temos de perder o outro para a falta de sentido que a vida impõe. Encontrar culpados parece mais fácil do que lidar com o desamparo  e a falta de controle diante da vida. 

Você já reparou que existe uma palavra para quem perde os pais (órfão), o marido/esposa (viúvo), mas não existe palavra para nomear pais que perdem um filho? Essa é uma experiência tão radical, anti – natural e de difícil elaboração psíquica que até mesmo a linguagem falha em reconhecer e colocar em palavra.

Ao longo do desenvolvimento do filme de Chloe Zao, vamos acompanhar a maneira diferente de viver o luto entre Agnes e Shakespeare. Nenhuma delas é melhor ou pior – mas como cada um lida com a morte do filho é explorado pelo filme. De quantas maneiras podemos viver um luto?

Freud escreve em Luto e Melancolia (1917) que no luto, ainda que dolorosamente, o sujeito consegue pouco a pouco retirar sua libido do objeto perdido e reinvesti-la no mundo. Há sofrimento, retraimento, desinteresse pela realidade, mas existe um movimento psíquico em direção à elaboração. Na melancolia, entretanto, algo falha. O objeto perdido não é abandonado e a perda deixa de ser apenas “eu perdi alguém” e passa a ser “eu mesmo me perdi e nem sei exatamente o que se perdeu em mim”. O sujeito se identifica de maneira radical com aquilo que perdeu.

Shakespeare parece oscilar constantemente entre esses dois estados. Em alguns momentos do filme, vemos personagens tentando elaborar a ausência; em outros, vemos uma espécie de paralisação melancólica, como se o tempo tivesse sido interrompido pela morte. A casa deixa de ser espaço doméstico e se transforma em cenário fantasmático onde tudo remete a dor e ao filho ausente.

Sabemos que ele foi um grande escritor e que sua principal obra é inspirada no luto pela perda do filho.  Ele sofreu de uma forma totalmente diferente da esposa. Sem ignorar o processo de luto, ele mergulha na escrita e deu luz à Hamlet, uma obra que apesar de inverter os papéis entre os personagens mortos – pois em Hamlet, é um filho que perde um pai – se entrelaça a todo momento com a história real da morte de seu filho. Hamlet acabou sendo uma história sobre o que fazemos com aquilo que perdemos, afinal “também somos aquilo que perdemos”*. Isso é devolver nossos mortos e nossas perdas ao mundo, num gesto de sublimação do desamparo, que não completa o sujeito, mas o permite compartilhar sua experiência em palavra com outros, que, reconhecendo-se na dor comum, nos devolvem algum tipo de realização que não nega a morte ou a perda, mas a eleva a dignidade significativa da memória e da eternidade.

 

Referências:

Freud: Luto e Melancolia (1917)

Dunker, Christian: O que o filme Hamnet ensina sobre o luto? (Youtube) 

*Frase citada no filme Amores Bruros de Alejandro Gonzalez Iñárritu

 

Patrícia Andrade

Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real

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